Marranos, Cristãos-Novos e Anussim
O que significam marrano, cristão-novo e anussim. A história dos judeus forçados a se converter em Espanha e Portugal que mantiveram a fé em segredo.
«Marrano», «converso», «cristão-novo», «anussim»: quatro palavras para uma das histórias de sobrevivência mais silenciosas que existem. A dos judeus de Espanha e de Portugal obrigados a tornar-se cristãos, e a dos seus descendentes, que carregaram um fio escondido de identidade durante cinco séculos. Os termos sobrepõem-se, mas não querem dizer o mesmo — e a diferença importa.
O que significa «marrano»?
É a mais antiga destas palavras, e também a mais carregada. Em castelhano medieval queria dizer «porco», e era atirada como insulto aos conversos suspeitos de continuarem a praticar a sua fé em segredo. Os especialistas ainda discutem a origem exata: uns fazem-na remontar ao árabe muharram («proibido»), outros simplesmente ao porco — um escárnio evidente dirigido a quem era acusado de fingir que comia carne de porco. Venha de onde vier, nasceu como insulto. Os historiadores usam-na como termo técnico para os criptojudeus ibéricos, mas muitos descendentes preferem converso, cristão-novo ou o hebraico anussim, e percebe-se perfeitamente porquê. Neste site usamos «marrano» apenas porque é o que as pessoas procuram; nunca como nome para uma pessoa.
Conversos e cristãos-novos
A história começa antes da expulsão famosa. Em 1391, uma vaga de violência antijudaica varreu Castela e Aragão, e dezenas de milhares de judeus foram batizados sob ameaça de morte. Aqueles primeiros conversos, e os muitos que se lhes seguiram, passaram a chamar-se conversos ou cristãos-novos, por oposição aos «cristãos-velhos», sem ascendência judaica ou muçulmana.
A rutura chegou em 1492, quando o Decreto de Alhambra colocou os judeus de Espanha perante uma escolha brutal: converter-se ou partir. Os que ficaram engrossaram as fileiras dos conversos. Cinco anos depois, em 1497, Portugal foi ainda mais longe: em vez de expulsar os seus judeus — muitos deles refugiados recém-chegados de Espanha —, a coroa de D. Manuel I ordenou uma conversão forçada em massa e batizou uma comunidade inteira quase de um dia para o outro. Foi por isso que Portugal ficou, da noite para o dia, com uma população cristã-nova enorme, e é por isso que tantos sobrenomes portugueses correntes figuram entre os de origem conversa.
Anussim e b'nei anussim
Anussim é hebraico e significa «os forçados». É um termo da lei judaica e não traz nada do desprezo de «marrano»: descreve judeus obrigados a abandonar a sua religião contra a sua vontade. E há aqui algo essencial: a halachá tradicional considera que os anussim continuam a ser judeus, porque a sua conversão foi forçada e não escolhida. Daí que a palavra se use com respeito onde «marrano» não o tem. Opõe-se a meshumadim, os que se converteram por vontade própria.
B'nei anussim — «filhos dos forçados» — são os seus descendentes: os milhões de pessoas do Brasil, da América Latina, da Península Ibérica e do sudoeste dos Estados Unidos que têm, nalgum ramo da família, estes judeus sefarditas convertidos. Muitos não guardam qualquer memória disso; outros cresceram com costumes que ninguém nunca lhes soube explicar.
O criptojudaísmo e a Inquisição
Converter-se no papel nem sempre significou converter-se por dentro. Durante gerações, algumas famílias de cristãos-novos mantiveram vivos fragmentos de vida judaica de porta fechada: acender velas à sexta-feira ao fim da tarde, evitar a carne de porco, lavar e enterrar os seus mortos à maneira judaica, jejuar num dia solene de outono que era um eco do Yom Kipur. A essa prática secreta os historiadores chamam criptojudaísmo.
Era também perigosa. A Inquisição espanhola, fundada em 1478, e a sua congénere portuguesa, estabelecida em 1536, existiam em boa medida para perseguir os judaizantes: conversos suspeitos de continuarem a praticar o judaísmo. A denúncia, o processo e o confisco empurraram muitas famílias para os confins do império — México, Peru, Colômbia, Brasil e a fronteira daquilo que hoje é o sudoeste dos Estados Unidos —, levando consigo as suas práticas ocultas. Com o tempo, as razões perderam-se, mesmo onde os costumes sobreviveram.
Os b'nei anussim hoje
Nas últimas décadas esta história voltou à luz. Há comunidades de b'nei anussim que se identificam como tal no Nordeste brasileiro, no Novo México, no Texas e na Colômbia; Espanha e Portugal abriram — e depois apertaram — vias de cidadania para descendentes sefarditas documentados; e a genealogia genética acrescentou uma ferramenta nova ao lado de uma tradição oral frágil. Para muitos, o caminho começa com uma única pergunta: terá a nossa família sido judia?
Perguntas frequentes
O que é um marrano?
Um termo histórico para os judeus de Espanha e de Portugal que se converteram ao cristianismo — muitas vezes à força — e eram suspeitos de continuar a praticar o judaísmo em segredo. A palavra vem do castelhano para «porco» e nasceu como insulto, e é por isso que muitos descendentes preferem cristão-novo ou anussim.
Qual é a diferença entre um converso e um marrano?
«Converso» (ou cristão-novo) é o termo neutro para qualquer judeu que se converteu ao cristianismo. «Marrano» trazia ainda a acusação de continuar a praticar o judaísmo em segredo, e é pejorativo na origem.
O que significa anussim?
É hebraico e quer dizer «os forçados»: judeus obrigados a converter-se contra a sua vontade. A lei judaica tradicional continua a considerá-los judeus, e por isso o termo é respeitoso onde «marrano» não é.
Quem são os b'nei anussim?
Os descendentes dos anussim: milhões de pessoas no Brasil, na América Latina, na Península Ibérica e no sudoeste dos Estados Unidos, algumas das quais estão hoje a reencontrar-se com as raízes judaicas da família.
Todos os conversos eram judeus secretos?
Não. Alguns assimilaram-se por completo ao cristianismo; outros conservaram fragmentos de prática judaica durante gerações. O que marca a diferença são os costumes familiares, a região e os documentos, não o rótulo por si só.