Criptojudeus da América Latina e do Sudoeste dos EUA

Do Novo México ao México, Brasil e Colômbia: os descendentes criptojudeus (anussim) da América Latina e do sudoeste dos EUA e as suas tradições sobreviventes.

A Inquisição não parou no Atlântico. As famílias que fugiam dela também não. Os criptojudeus atravessaram para o Novo Mundo quase desde o início, e os seus descendentes estão hoje espalhados da Cidade do México a Bogotá e ao alto deserto do norte do Novo México — muitas vezes sem outra herança além de um costume e de uma pergunta.

Como os criptojudeus chegaram ao Novo Mundo

Para uma família cristã-nova sob suspeita, as colónias ofereciam uma coisa preciosa: distância. Território imenso, administração escassa e uma fronteira onde ninguém conhecia os seus avós. A emigração estava formalmente vedada aos cristãos-novos, mas as restrições contornavam-se — e os conversos portugueses, em particular, moveram-se pelo Brasil e pelo Rio da Prata até à América espanhola.

A ironia é amarga: a Inquisição seguiu-os. Foram criados tribunais na Cidade do México e em Lima (1570–71) e, mais tarde, em Cartagena das Índias (1610). O oceano dava distância, não dava imunidade.

Descendentes anussim no México

A história criptojudaica mais conhecida da América colonial é a da família Carvajal. Luis de Carvajal y de la Cueva, cristão-novo de origem portuguesa, foi nomeado governador do Novo Reino de Leão na década de 1580. A sua família alargada praticava o judaísmo em segredo; a Inquisição descobriu-o e, nos anos noventa do século XVI, processou a família. Vários dos seus membros — entre eles o sobrinho, Luis de Carvajal, o Moço — foram executados.

O caso está excecionalmente bem documentado e demonstra duas coisas: que o criptojudaísmo foi realmente transplantado para a América, e com que ferocidade foi perseguido.

Comunidades no Brasil, Colômbia e além

O Brasil, colónia portuguesa, recebeu uma grande população cristã-nova, concentrada na economia do açúcar do nordeste. Durante o breve domínio neerlandês do Recife (1630–1654), alguns regressaram abertamente ao judaísmo e fundaram a primeira sinagoga das Américas. Quando os portugueses retomaram a cidade, muitos fugiram — e um grupo chegou em 1654 a Nova Amsterdão, fundando a comunidade judaica mais antiga do que é hoje os Estados Unidos.

Em Cartagena e em Lima, os tribunais inquisitoriais processaram comerciantes portugueses como judaizantes, sobretudo nos grandes processos limenhos da década de 1630.

Criptojudeus do sudoeste dos EUA

O norte do Novo México é a história criptojudaica mais falada — e mais disputada — dos Estados Unidos. Desde finais dos anos oitenta começaram a documentar-se famílias hispânicas de aldeias remotas que mantinham práticas inconfundíveis: velas à sexta-feira à noite, evitar carne de porco, estrelas de seis pontas nas lápides, enterros rápidos. Algumas dessas famílias descendiam de colonos da expedição de Oñate de 1598, na qual consta que havia cristãos-novos.

O debate é real, não está resolvido, e seria desonesto apresentá-lo de outra forma. A folclorista Judith Neulander defendeu com força que vários desses costumes têm outras explicações — entre elas a influência de missionários adventistas do sétimo dia e de outras igrejas protestantes na região — e que, uma vez sugerida uma origem judaica, as famílias reinterpretam hábitos correntes para que encaixem. Outros investigadores, e alguns estudos genéticos que apontam para marcadores associados a populações sefarditas entre populações hispânicas do sudoeste, defendem uma continuidade real. Os dois lados manejam provas sérias. A conclusão razoável é que algumas famílias neomexicanas quase de certeza descendem de conversos — e que nem todo o costume citado como prova o é.

Reconectar-se com as raízes sefarditas

Se a sua família vem do mundo ibérico — México, sudoeste norte-americano, Brasil, Colômbia, Peru ou a própria Península —, um antepassado converso é uma hipótese genuinamente plausível, não uma fantasia. Também é uma hipótese que exige provas: a região, os sobrenomes, os costumes e, sobretudo, os documentos — que na América Latina são invulgarmente ricos.

O nosso guia de pesquisa explica por onde começar, e um teste de DNA pode acrescentar mais um sinal ao quadro. Um sinal, note-se — nunca uma prova.

Perguntas frequentes

Houve criptojudeus no Novo México?

Com bastante probabilidade sim, em algumas famílias — na expedição de Oñate de 1598 havia cristãos-novos —, mas o alcance está genuinamente em disputa entre especialistas, e vários costumes citados como prova têm explicações alternativas.

A Inquisição atuou na América Latina?

Sim. Foram estabelecidos tribunais na Cidade do México e em Lima por volta de 1570–71 e em Cartagena das Índias em 1610, e processaram conversos acusados de judaizar.

Quem foram os Carvajal?

Uma família cristã-nova de origem portuguesa no México colonial. O governador Luis de Carvajal y de la Cueva e os seus familiares foram processados pela Inquisição na década de 1590 por praticarem o judaísmo em segredo, e vários foram executados.

De onde surgiu a primeira comunidade judaica das Américas?

A vida judaica aberta surgiu no Recife neerlandês, no Brasil, em meados do século XVII. Quando Portugal retomou a cidade em 1654, os refugiados dispersaram-se, e um grupo que chegou a Nova Amsterdão fundou a comunidade judaica mais antiga do que é hoje os Estados Unidos.

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