Judeus Sefarditas: História, Diáspora e Descendentes

Quem são os judeus sefarditas? A sua história desde a Ibéria medieval até à expulsão de 1492 e à diáspora atual, e os descendentes ocultos dos anussim.

Os judeus sefarditas — os judeus de Sefarad, o nome hebraico da Península Ibérica — construíram ao longo de mil anos, em Espanha e em Portugal, uma das civilizações judaicas mais ricas da história. Em 1492 esse mundo partiu-se. Os seus descendentes estão hoje espalhados pelo planeta inteiro, e muitíssimos deles, sobretudo na América Latina, não fazem ideia de que o são.

Quadro de Emanuel de Witte do interior da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, fundada por exilados sefarditas, com fiéis sob colunas altas.
Emanuel de Witte, Interior da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão (c. 1680), Rijksmuseum. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Quem são os judeus sefarditas?

«Sefarad» é a palavra hebraica para Espanha, e sefarditas significa, à letra, «os espanhóis». O termo abrange os judeus que viveram em Espanha e em Portugal antes das expulsões e os seus descendentes desde então: uma comunidade com liturgia própria, tradições jurídicas próprias, cozinha própria e língua própria, o ladino.

Costuma distinguir-se os sefarditas dos asquenazes, os judeus das terras franco-alemãs e da Europa central e oriental, e dos mizrahim, os do Médio Oriente e do norte de África. Na prática, as fronteiras esbatem-se: depois de 1492 os exilados sefarditas instalaram-se no meio de comunidades judaicas que já existiam por todo o norte de África e pelo mundo otomano, e desde então os rótulos usam-se com bastante flexibilidade.

Mil anos na Península

Houve judeus na Ibéria desde a época romana, e a sua sorte subiu e desceu com cada poder que governou. Sob domínio muçulmano no al-Ândalus, aproximadamente entre os séculos X e XII, a vida judaica sefardita atingiu um patamar a que se costuma chamar a Idade de Ouro: médicos, poetas, homens de Estado e filósofos judeus escreviam em hebraico e em árabe e marcaram a vida intelectual da Península. Moisés Maimónides, o grande filósofo e jurista judeu, nasceu em Córdoba no século XII. Judá Halevi escreveu poemas que ainda hoje se recitam. Shmuel ibn Nagrella foi vizir de Granada.

À medida que os reinos cristãos avançavam, a posição dos judeus ibéricos tornou-se cada vez mais precária. Em 1391, uma vaga de motins antijudaicos varreu Castela e Aragão: comunidades inteiras foram destruídas e dezenas de milhares de judeus foram batizados sob ameaça de morte. É esse ano que marca o verdadeiro começo da história conversa.

1492 e a dispersão

A 31 de março de 1492, na recém-conquistada Granada, os Reis Católicos assinaram o édito que hoje conhecemos como Decreto de Alhambra. Os judeus de Espanha tiveram poucos meses para aceitar o batismo ou sair do reino. As estimativas de quantos partiram variam muito entre historiadores — de dezenas de milhares a bem mais de cem mil — e muitos outros ficaram e converteram-se.

Os que partiram foram para o Império Otomano, onde o sultão Bayezid II os acolheu e onde Salónica, Istambul e Esmirna se tornaram grandes centros sefarditas; para o norte de África, sobretudo Fez e Tetuão; para Itália; e mais tarde para Amesterdão, Londres e as Américas. Os que ficaram tornaram-se conversos ou cristãos-novos; e em Portugal, onde a coroa ordenou em 1497 uma conversão forçada em massa em vez de uma expulsão, praticamente toda a comunidade judaica passou a cristã-nova de um dia para o outro.

O ladino: uma língua que guardou a memória

Os exilados sefarditas levaram consigo o seu espanhol e continuaram a falá-lo durante quinhentos anos. O ladino (judeu-espanhol, também chamado djudezmo) é, no essencial, castelhano medieval, conservado longe de Espanha e enriquecido com vocabulário hebraico, aramaico, turco, grego e árabe. Durante séculos escreveu-se em caracteres hebraicos. O lema deste projeto, Mos Somos Djudyos — «somos judeus» —, é ladino. A língua sobreviveu em Salónica e em Istambul, ficou devastada pelo Holocausto e está hoje gravemente ameaçada.

Os sefarditas hoje

Há comunidades sefarditas em Israel, em França, na Turquia, em Marrocos, nos Estados Unidos e em toda a América Latina. A par delas existe um grupo muito maior e muito menos visível: os b'nei anussim, descendentes dos conversos forçados que nunca saíram da Ibéria ou que levaram a identidade oculta para o Novo Mundo.

Você descende de judeus sefarditas?

Milhões de pessoas na América Latina, em Espanha, em Portugal e no sudoeste dos Estados Unidos têm alguma ascendência sefardita sem o saber. As pistas costumam ser discretas: um sobrenome, uma região, um costume de família que ninguém soube explicar, uma avó que acendia velas à sexta-feira à tarde e nunca disse porquê. Nenhuma prova nada por si só, mas juntas formam um fio que vale a pena puxar. O nosso guia para investigar a ascendência sefardita explica como começar.

Perguntas frequentes

O que significa «sefardita»?

Vem de Sefarad, o nome hebraico da Península Ibérica. Os judeus sefarditas são os judeus de Espanha e de Portugal e os seus descendentes.

Qual é a diferença entre sefarditas e asquenazes?

Os sefarditas vêm de Espanha e de Portugal; os asquenazes, das terras franco-alemãs e da Europa central e oriental. Distinguem-se na liturgia, na pronúncia do hebraico, nos costumes, na cozinha e na língua histórica: ladino face a iídiche.

Que língua falavam os judeus sefarditas?

O ladino ou judeu-espanhol: castelhano medieval conservado no exílio e misturado com hebraico, turco, grego e árabe. Hoje está em perigo crítico.

Para onde foram os sefarditas depois de 1492?

Sobretudo para o Império Otomano (Salónica, Istambul, Esmirna), para o norte de África, para Itália e mais tarde para Amesterdão, Londres e as Américas. Muitos outros ficaram na Ibéria como conversos forçados.

Ainda existem judeus sefarditas hoje?

Sim: em Israel, em França, na Turquia, em Marrocos, nas Américas e noutros lugares, a par de um número muito maior de descendentes de conversos que só agora estão a redescobrir essa história.

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