Judeus Sefarditas: História, Diáspora e Descendentes
Quem são os judeus sefarditas? A sua história desde a Ibéria medieval até à expulsão de 1492 e à diáspora atual, e os descendentes ocultos dos anussim.
Os judeus sefarditas — os judeus de Sefarad, o nome hebraico da Península Ibérica — construíram ao longo de mil anos, em Espanha e em Portugal, uma das civilizações judaicas mais ricas da história. Em 1492 esse mundo partiu-se. Os seus descendentes estão hoje espalhados pelo planeta inteiro, e muitíssimos deles, sobretudo na América Latina, não fazem ideia de que o são.
Quem são os judeus sefarditas?
«Sefarad» é a palavra hebraica para Espanha, e sefarditas significa, à letra, «os espanhóis». O termo abrange os judeus que viveram em Espanha e em Portugal antes das expulsões e os seus descendentes desde então: uma comunidade com liturgia própria, tradições jurídicas próprias, cozinha própria e língua própria, o ladino.
Costuma distinguir-se os sefarditas dos asquenazes, os judeus das terras franco-alemãs e da Europa central e oriental, e dos mizrahim, os do Médio Oriente e do norte de África. Na prática, as fronteiras esbatem-se: depois de 1492 os exilados sefarditas instalaram-se no meio de comunidades judaicas que já existiam por todo o norte de África e pelo mundo otomano, e desde então os rótulos usam-se com bastante flexibilidade.
Mil anos na Península
Houve judeus na Ibéria desde a época romana, e a sua sorte subiu e desceu com cada poder que governou. Sob domínio muçulmano no al-Ândalus, aproximadamente entre os séculos X e XII, a vida judaica sefardita atingiu um patamar a que se costuma chamar a Idade de Ouro: médicos, poetas, homens de Estado e filósofos judeus escreviam em hebraico e em árabe e marcaram a vida intelectual da Península. Moisés Maimónides, o grande filósofo e jurista judeu, nasceu em Córdoba no século XII. Judá Halevi escreveu poemas que ainda hoje se recitam. Shmuel ibn Nagrella foi vizir de Granada.
À medida que os reinos cristãos avançavam, a posição dos judeus ibéricos tornou-se cada vez mais precária. Em 1391, uma vaga de motins antijudaicos varreu Castela e Aragão: comunidades inteiras foram destruídas e dezenas de milhares de judeus foram batizados sob ameaça de morte. É esse ano que marca o verdadeiro começo da história conversa.
1492 e a dispersão
A 31 de março de 1492, na recém-conquistada Granada, os Reis Católicos assinaram o édito que hoje conhecemos como Decreto de Alhambra. Os judeus de Espanha tiveram poucos meses para aceitar o batismo ou sair do reino. As estimativas de quantos partiram variam muito entre historiadores — de dezenas de milhares a bem mais de cem mil — e muitos outros ficaram e converteram-se.
Os que partiram foram para o Império Otomano, onde o sultão Bayezid II os acolheu e onde Salónica, Istambul e Esmirna se tornaram grandes centros sefarditas; para o norte de África, sobretudo Fez e Tetuão; para Itália; e mais tarde para Amesterdão, Londres e as Américas. Os que ficaram tornaram-se conversos ou cristãos-novos; e em Portugal, onde a coroa ordenou em 1497 uma conversão forçada em massa em vez de uma expulsão, praticamente toda a comunidade judaica passou a cristã-nova de um dia para o outro.
O ladino: uma língua que guardou a memória
Os exilados sefarditas levaram consigo o seu espanhol e continuaram a falá-lo durante quinhentos anos. O ladino (judeu-espanhol, também chamado djudezmo) é, no essencial, castelhano medieval, conservado longe de Espanha e enriquecido com vocabulário hebraico, aramaico, turco, grego e árabe. Durante séculos escreveu-se em caracteres hebraicos. O lema deste projeto, Mos Somos Djudyos — «somos judeus» —, é ladino. A língua sobreviveu em Salónica e em Istambul, ficou devastada pelo Holocausto e está hoje gravemente ameaçada.
Os sefarditas hoje
Há comunidades sefarditas em Israel, em França, na Turquia, em Marrocos, nos Estados Unidos e em toda a América Latina. A par delas existe um grupo muito maior e muito menos visível: os b'nei anussim, descendentes dos conversos forçados que nunca saíram da Ibéria ou que levaram a identidade oculta para o Novo Mundo.
Você descende de judeus sefarditas?
Milhões de pessoas na América Latina, em Espanha, em Portugal e no sudoeste dos Estados Unidos têm alguma ascendência sefardita sem o saber. As pistas costumam ser discretas: um sobrenome, uma região, um costume de família que ninguém soube explicar, uma avó que acendia velas à sexta-feira à tarde e nunca disse porquê. Nenhuma prova nada por si só, mas juntas formam um fio que vale a pena puxar. O nosso guia para investigar a ascendência sefardita explica como começar.
Perguntas frequentes
O que significa «sefardita»?
Vem de Sefarad, o nome hebraico da Península Ibérica. Os judeus sefarditas são os judeus de Espanha e de Portugal e os seus descendentes.
Qual é a diferença entre sefarditas e asquenazes?
Os sefarditas vêm de Espanha e de Portugal; os asquenazes, das terras franco-alemãs e da Europa central e oriental. Distinguem-se na liturgia, na pronúncia do hebraico, nos costumes, na cozinha e na língua histórica: ladino face a iídiche.
Que língua falavam os judeus sefarditas?
O ladino ou judeu-espanhol: castelhano medieval conservado no exílio e misturado com hebraico, turco, grego e árabe. Hoje está em perigo crítico.
Para onde foram os sefarditas depois de 1492?
Sobretudo para o Império Otomano (Salónica, Istambul, Esmirna), para o norte de África, para Itália e mais tarde para Amesterdão, Londres e as Américas. Muitos outros ficaram na Ibéria como conversos forçados.
Ainda existem judeus sefarditas hoje?
Sim: em Israel, em França, na Turquia, em Marrocos, nas Américas e noutros lugares, a par de um número muito maior de descendentes de conversos que só agora estão a redescobrir essa história.